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Uma Professora Especial - Débora Moura


Autoria: Ana Luisa Correia
Data: 27/11/2005
Resuno:
Diário de Notícias da Madeira, edição de 27 de Novembro de 2005


Débora Seabra de Moura tem apenas vinte e quatro anos, uma frescura que é visível no brilho do olhar e uma experiência de vida que a faz ser muito mais adulta do que qualquer um com mais anos vividos. Esta brasileira de sorriso franco e sem papas na língua fez história este ano ao concluir o curso de Magistério da Escola Estadual Luís António, tornando-se a primeira professora formada com Síndrome de Down do Brasil e um dos raros casos ao nível mundial. Na breve passagem pela Madeira, onde participou como palestrante no II Encontro Regional de Educação Especial, Débora não teve quaisquer problemas em contar a sua experiência e foi numa manhã cheia de sol que, em menos de uma hora, conseguiu dar à REVISTA uma lição de vida que merece ser partilhada, contada e recontada, até que os caminhos da inclusão se tornem menos sinuosos e difíceis de percorrer. O INÍCIO DA LUTA Débora nasceu em Natal, cidade do Nordeste brasileiro. Era a segunda filha desejada (tem um irmão um ano e meio mais velho) de um casal com um bom nível de instrução. Quando nasceu, rapidamente os pais se aperceberam que a pequenina era portadora de Síndrome de Down, uma deficiência genética, mas isso não fez com que desistissem de Débora. A mãe, Margarida, jurista de profissão, conta que quando a filha nasceu, pouco se falava e se conhecia sobre a Síndrome de Down em Natal e esse facto fez com se criasse uma porta para um possível caminho de inclusão. E foi nesta perspectiva, de que Débora deveria ter as mesmas oportunidades que uma criança dita "normal" que, aos dois anos, ingressou numa pré-escola da localidade. Por lá ficou seis meses, até mudar para outra escola onde fez «a pré, jardim, alfabetização e até a quarta série», recorda. Foi nesses anos de infância que travou a primeira de muitas batalhas já ganhas e outras que de certeza irá ter de enfrentar pela vida fora. «Naquela época», recorda, «falava-se muito em mongolismo. Aí, um dia, chegou um menino e me chamou de "Mongol". Eu caí num choro...» Mas isso não a impediu de continuar. Limpou as lágrimas quando ouviu a professora perguntar ao menino se ele sabia o significado do que tinha acabado de dizer. Ele disse que não. Este episódio foi como que um sinal para Débora que, a partir daí, começou a enfrentar os outros com uma outra atitude. Depois de concluir a quarta série foi para o Colégio Imaculada Conceição, «um colégio de freiras», salienta. Por ali ficou cinco anos, enfrentando por várias vezes o preconceito de colegas. É desta época que recorda um episódio que lhe ficou marcado na memória. Um dia estavam duas meninas (uma delas portadora de Down) a brincar no pátio. Débora aproximou-se e agarrou na bola para entrar na brincadeira, mas logo ouviu a voz da colega que lhe dizia «Com Down basta uma!» Afastou-se nesse dia, mas no seguinte voltou ao pátio para oferecer à "amiga" um folheto com o slogan "Preconceito agora é crime". Mais uma barreira era assim derrubada. Concluindo os estudos no Imaculada Conceição, foi fazer o primeiro ano do segundo grau na Escola Doméstica, um local onde se ensina «a ser dona de casa, aprendendo etiqueta... uma escola quase do tempo da minha bisavó», acrescenta com o humor que lhe é próprio. Foi aí que, durante as tardes, começou a trabalhar como auxiliar de professora. A experiência de lidar com crianças pequenas fez com que Débora se apercebesse do rumo que queria que a sua vida tomasse. O Magistério era então o único caminho a seguir... "BARRAS PESADAS" Quando concluiu o segundo grau, Débora inscreveu-se no curso de magistério na Escola Estadual Luís António para que pudesse concretizar o sonho de ser professora e de trabalhar com crianças. Mas não foi "pêra doce". «No primeiro ano tive dificuldades por causa dos professores, porque eles não entendiam nada de inclusão», explica-nos com alguma tristeza, aproveitando para chamar a atenção que «a inclusão começa na família e depois na escola». Mais uma vez, era-lhe pedida uma força quase que sobrenatural para enfrentar outra barreira. Escreveu uma carta aos professores e lutou pelos seus direitos, mas hoje recorda como essa época foi mesmo «barra pesada». Depois de um primeiro ano complicado, no segundo e terceiro as dificuldades passaram a ser sentidas com os colegas. «Eu chegava a sair da sala porque pensava que não ia aguentar», confessa, recordando que havia um grupo que se recusava a fazer trabalhos conjuntos com ela. Mas acabou por aguentar, lidando diariamente com aquilo que define como «preconceito, exploração e indiferença por causa da síndrome». No terceiro ano do curso começou a sentir que algo estava a mudar e «aos poucos fui conquistando as pessoas de lá». Hoje chega até a sentir saudades dos tempos que por lá passou e dos amigos que fez, porque afinal foram quatro anos da sua vida. Mas o caminho é mesmo para frente e muitos mais desafios se esperam. Um dia que recorda com muito carinho e orgulho é o dia da sua formatura. Vestida a rigor, teve como madrinha a avó materna e como padrinho o irmão (já Débora tinha sido madrinha de formatura do único irmão). Foi a avó que lhe deu o precioso «anel de magistério», um anel de ouro com a pedra azul símbolo do curso concluído, que esta recém-formada "mestra" quase nunca tira do dedo anelar da mão esquerda, exceptuando para «dormir ou para tomar banho, mas depois ponho de volta», diz-nos com um sorriso. Depois dos estágios curriculares, onde se conseguiu adaptar não só com as colegas professoras mas também ao rebuliço dos alunos, voltou à Escola Doméstica onde trabalha agora como auxiliar. Da rotina diária relata que chega à escola sempre por volta das sete da manhã e aos poucos vai preparando para a recepção das crianças da sua turma. Afirmando que rapidamente ficou amiga das professoras Sandra e Andreia, Débora gosta mesmo é de lidar com os seus alunos. E por isso não se importa de chegar bem cedo à escola para poder dar "bom dia" aos pequenitos. Depois ajuda-os a desenvencilharem-se das sacolas e a arrumarem os livros e os cadernos na mesa, «para poderem escrever qualquer coisa... Mas eu não! A professora!», explica Débora para que não haja dúvidas acerca das suas funções. Depois do lanche, quando as crianças vão para o parque, o importante é estar atenta a todas as situações. «Eu peguei essa turma que às vezes tem umas briguinhas» e é preciso acalmar os ânimos, algo que faz já com uma perna às costas. Por enquanto, e relativamente à experiência profissional obtida até agora, o veredicto é favorável. «Gosto muito deste trabalho com crianças», afirma sem qualquer hesitação. FUTURO FEITO DE SONHOS Agora o objectivo é continuar na profissão que já iniciou e se ir aperfeiçoando aos poucos. Gostava de no futuro fazer um projecto relacionado com crianças portadoras de Síndrome de Down ou de outras deficiências, por forma a que elas tenham as mesmas oportunidades que ela teve e que a fizeram desabrochar numa mulher verdadeiramente maravilhosa e com um espírito invejável. Aos vinte e quatro anos, Débora leva uma vida perfeitamente normal. Vive com os pais mas quer ter uma casa só sua e ser independente, «É o meu sonho!», revela. Viaja por todo o Brasil dando palestras sobre a Síndrome de Down e como ultrapassar os preconceitos causados por este problema genético e consegue tempo para ter alguns hobbies como aquele de estar agora a aprender a tocar violão. O professor, João, vai lá a casa e ensina-lhe os "mistérios" daquele instrumento musical. «E eu estou conseguindo aquele ritmo.» Enquanto as cordas ainda escondem alguns segredos, Débora aproveita para ouvir alguma da música que aprecia. A sertaneja, música tradicional do Nordeste, é o estilo preferido, mas do rol das canções habituais não faltam também os sons dos Beatles. Depois há os pequenos trabalhos que vão surgindo, com base num programa direccionado para o mercado de trabalho e que foi criado no âmbito da Associação Síndrome de Down/RN (uma entidade a que, desde bem pequena, Débora deu a cara para cartazes e folhetos que foram percursores de um movimento inclusivo que hoje existe em todo o país). Nesse âmbito sublinha que já trabalhou como auxiliar de vendas e é recepcionista na Quinta Jurídica, um evento habitual em Natal. Com tudo isto, e em todas estas experiências, o espantoso é saber que esta jovem professora nunca sentiu «esse problema de dificuldade em entrar no mercado de trabalho». E antes de terminar a conversa com a REVISTA, aproveita para recordar que o Síndrome de Down «não é doença. É um problema genético». Por isso sempre lutou pela inclusão, primeiro pela sua própria e agora pela dos outros, em todos os locais do Mundo onde passa para levar a sua mensagem, onde a sua história serve como exemplo. E que exemplo! Afinal, mesmo perante todas as dificuldades, Débora Seabra de Moura pode mesmo afirmar ter enfrentado as barreiras do preconceito, da exploração e da indiferença até conseguir atingir os seus objectivos. «Enfrentei isso tudinho. Sou uma batalhadora!» E nós aplaudimos

 
 
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