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[14/06/2009] O filho eterno: um livro de se jogar longe, pela janela

síndrome de Down

Fonte: REDE SACI


O filho eterno: um livro de se jogar longe, pela janela Gazeta do Sul 18/05/2009 A ação ilustra a sensação de vermos o que não queremos ver ou como "quando negamos quando não sabemos como lidar com o diferente". É o que conta Cristovão Tezza em seu livro e o autor deste artigo. Comentário SACI: Notícia publicada em 12 de maio de 2009 Norberto Perkoski Para alguns, um bom livro é aquele que nos faz esquecer das atribuições cotidianas e nos permite ingressar, através da imaginação, em um outro mundo, em que podemos vivenciar aventuras, sonhos e realizações que não nos é possível concretizar no dia-a-dia. Para outros, o livro valorizado é o que apresenta um conselho, uma palavra amiga para enfrentar a difícil trajetória de vida. Um remanso dentro do caos. Para mim, dentre outros aspectos, um bom livro é aquele que desmascara a nossa condição humana, com nossos medos, angústias, lutas, fracassos e vitórias. Em especial, aqueles livros que a desnudam com coragem, sem concessões ao fácil, os livros que desassossegam o leitor. Aqueles livros que revelam profundamente o que não queríamos ver, aqueles livros dos quais, súbito, nos afastamos pela ousadia com que nos disseram o que não gostaríamos de saber, os livros que, em certo momento, desejaríamos jogar longe, pela janela. O último dos livros que me provocou esse desejo foi O filho eterno, do escritor Cristovão Tezza, o romance brasileiro mais premiado em 2008. A história que ele nos relata é densa, sofrida, marcada por uma tragédia pessoal. No início, o jeito de contar é leve, solto: um estudante de Letras, revisor de teses e dissertações, dentre elas uma da área de genética, age despreocupadamente, como se realizasse um ritual existencial cujo roteiro já tivesse sido escrito, bastando para tanto apenas cumpri-lo. O tornar-se pai é mais um dos elementos desse rito a realizar-se. No entanto, com o nascimento do filho, o correr da existência sofre um baque, uma ruptura, um corte. Seu filho é, como constata o pai, mongolóide. Mongolóide. Termo pejorativo nos anos 80, período em que se dá o nascimento do filho, e que a expressão “síndrome de Down” viria, através da denominação científica, eufemisticamente, abrandar e nos permitir citá-la sem agredirmos o ser a quem ela nomeia e a seus familiares, que sofrem com a doença. Na história, o pai, não aceitando o fato, pondera existir uma solução. A saída lhe proporcionaria retomar a vida despreocupada que ele levara até o nascimento do filho. Na passagem em que ele relata o que seria a saída, ocorreu-me a vontade de jogar o livro pela janela. Por meio da revisão que havia feito sobre o trabalho acadêmico de genética, envolvendo portadores da síndrome de Down, as pesquisas realizadas até então certificavam o que o pai considera como o pensamento salvador: eles morrem cedo. A ideia que lhe ocorre é assustadora e corajosa, porque seria um pensamento passível de ocorrer a qualquer um de nós. A coragem está em aceitá-la como salvadora. Nessa passagem, desassossegado, abandonei temporariamente o livro. Ao retomar a leitura, em vários outros momentos tive dificuldades em avançar, levantando os olhos do texto atingido pela crueza de suas verdades. Eis algumas delas: a vergonha do pai de verbalizar o problema para os amigos e conhecidos, a angústia com o desaparecimento momentâneo do filho, a preocupação em escolher e encaminhar o melhor tratamento para inseri-lo no processo de sociabilidade. Num caminho gradual e lentíssimo, o pai vai aceitando o filho e aprendendo a amá-lo, revelando que, em situações semelhantes, todos nós temos dificuldades de lidar com elas e que a afeição e o amor não são estados emocionais prontos, mas construções elaboradas existencialmente através da interação humana. Considero esse livro uma lição de vida, não daquelas fáceis que certas obras tentam nos apresentar como milagrosas receitas, mas uma real e dolorosa aprendizagem do leitor em relação ao diferente, que nos é difícil, que também nós negamos quando não sabemos como lidar com ele. Lição que aprendi com Adriana Thoma, minha amiga e professora de surdos, quando, numa oportunidade jantando isolado numa mesa de hotel, percebi que ela conversava e traduzia a língua de sinais para os falantes que não a entendiam e todos riam alegremente. Senti vontade de participar e, por não saber como, desisti. Em outro dia, ao relatar o fato à professora, ela ponderou que a dificuldade que eu havia sentido é comum a todos e que para vencê-la, numa próxima oportunidade, eu deveria me integrar ao grupo. Temeroso num primeiro momento, foi o que fiz. Ao final dessa outra noite, em que também conversei e ri com todos, analisando o fato, constatei que o receio de se envolver com o diferente é uma dificuldade passível de ser superada quando nos predispomos a isso em um processo de vencer os nossos medos e preconceitos, assim como o pai na narrativa de O filho eterno.

 
 
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